domingo, 29 de novembro de 2009

Editorial Jornal Cruzeiro do sul dia 27 de Novembro A versão e o contexto

A versão e o contexto







observações do ex-secretário Werinton Kermes ganham uma dimensão política mais compreensível quando lidas à luz de uma carta aberta divulgada no começo de novembro
É coerente a versão apresentada pelo prefeito de Votorantim, Carlos Augusto Pivetta (PT), e pelo jornalista e produtor cultural Werinton Kermes Telles Marsal, para a saída deste último da Secretaria de Cultura, que comandava - sempre com muitos elogios - desde o segundo governo de Jair Cassola, em 2004.
O ex-secretário, segundo se informa, está alçando voos como empresário do setor de comunicação, à frente do canal comunitário TVV (TV Votorantim), que ocupará o canal 10 da Supermídia. Com metade da programação dedicada à produção videográfica da comunidade e outra metade reservada às produções comerciais, a nova emissora de TV, de fato, poderia se tornar incompatível com a atividade de Werinton no setor público, especialmente se começasse a arregimentar anunciantes e patrocinadores entre empresários que têm interesses diretos na Prefeitura.
A preocupação manifestada por Pivetta - com a qual Werinton, em suas declarações mais recentes, demonstra concordar - revela uma ética ainda bastante rara entre agentes políticos, no sentido de prevenir situações embaraçosas ou mesmo problemas sérios com a lei, decorrentes de uma possível convergência dos assuntos de seu governo com os negócios particulares de um membro da administração. Entretanto, dois documentos que vieram a público nas últimas semanas sugerem que esse pode não ter sido o único motivo da saída do secretário, nem o principal.
Um deles é uma carta enviada por Werinton a este jornal, por ocasião do Dia da Cultura, em novembro (coluna “Do leitor”, 05/11). Escrita no momento em que o meio cultural de Sorocaba e Votorantim já comentava a possível saída do secretário, a missiva mostra um Werinton Kermes fortemente decepcionado com o tratamento oferecido ao setor cultural pelos políticos. Sem meias palavras, embora não acusasse frontalmente ninguém, Werinton deu provas de que sua visão privilegiada de cultura - e, particularmente, da cultura popular - não era compartilhada nem acima, nem abaixo da posição que ocupava. Devido à limitação de espaço, destacaremos dois pequenos trechos:
(...) Os poderes públicos constituídos pouco se esforçam na promoção da cultura, e, quando o fazem, se utilizam dela apenas como promessa de palanque, para a promoção pessoal e ascensão política. (...) Políticos espertos sabem muito bem como abocanhar votos de jovens sedentos por ações culturais e por entretenimento através de discursos nos quais prometem ações das mais diversas, dizem que vão valorizar a cultura popular, que cada jovem e adolescente da periferia vai ter seu espaço para desenvolver Hip Hop e outras ações, vendendo sonhos que não se concretizarão e que só aparecerão novamente no período de eleições. (...)
As observações do ex-secretário ganham uma dimensão política mais compreensível quando lidas à luz de uma carta aberta divulgada no começo de novembro por integrantes do PT e Sindicato dos Metalúrgicos, para apoiá-lo. Em meio a elogios rasgados a Werinton, os oito signatários - entre os quais estão os vereadores Izídio de Britto e Francisco França, de Sorocaba, o deputado estadual Hamilton Pereira e o deputado federal Vicente Paulo da Silva (Vicentinho) - deploram (o verbo é esse mesmo) “que Werinton tenha despertado a fúria de alguns ressentidos a quem o secretário faz sombra” e atribuem a uma injustificável inveja os “comentários ferinos, rumores e outros expedientes desleais” com que estaria sendo “bombardeado”.
O contexto político-partidário da saída de Werinton Kermes foi varrido para baixo do tapete por ele próprio e por Pivetta, em nome de uma convivência pacífica nos novos tempos que se avizinham. À população, só restou torcer para que razões políticas ou mesmo de vaidade não tenham sido determinantes para a interrupção abrupta de um trabalho reconhecido, que se tornou referência em política cultural para outros municípios.



Veja abaixo a íntegra da carta de Werinton Kermes e da carta aberta dos políticos do PT.

A dor da constatação


Por Werinton Kermes

Para produzir o livro “Política e ação Cultural. Por uma Gestão das Culturas” percorri caminhos que me levaram a uma constatação que eu insistia em não acreditar: que a cultura no Brasil é vista como um artigo de luxo e não como gênero de primeira necessidade, pelo menos ao que tange o poder público.
Nesse sentido, nega-se a cultura o seu caráter essencial e insubstituível, sua importância significativa no processo de construção da condição humana e no desenrolar da ação coletiva. Estamos impregnados de cultura e por meio dela é possível promover o desenvolvimento humano, estimular a criatividade, o aprendizado e a inovação, trabalhar a auto-estima, a cidadania e a atuação social, valorizar a diversidade e o multiculturalismo. O sentimento de pertencimento propiciado por ela fortalece a comunidade e atua como importante instrumento de combate a violência, além de ser um mecanismo de luta e resistência frente à massificação - que esmaga o indivíduo - e à dominação - que abate a cidadania.
Dessa forma, a defesa dos direitos humanos está estritamente ligada ao amparo dos direitos culturais, expressos na diversidade e no pluralismo, no direito a diferença, a visibilidade e a dignidade cultural. A justiça cultural está relacionada com a quantidade e disponibilidade dos bens culturais a que tenham acesso os cidadãos, possibilitando a eqüidade e a participação. Sem ela não existe democracia plena, já que o cidadão está ausente.
Hoje é o dia da cultura, mas, infelizmente, pouco temos a comemorar. Os poderes públicos constituídos pouco se esforçam na promoção da cultura, e, quando o fazem, se utilizam dela apenas como promessa de palanque, para a promoção pessoal e ascensão política.
As políticas vigentes estão, em sua maioria, associadas à concepção do liberalismo cultural que defende que a cultura não é dever do Estado e que ela deve estar sujeita às leis do mercado. Dessa forma, deve ser lucrativa a ponto de bancar a si própria. Neste pensamento, o incentivo à cultura está mais ligado à iniciativa privada, por meio de leis de incentivo fiscal e ligadas à promoção da marca institucional do patrocinador. Essa situação leva a um apoio maior a elementos da cultura de massa e/ou da cultura erudita e não tem preocupação em privilegiar a produção regional, porque estão afinadas a cartilha da globalização.
Uma política cultural freqüente em muitos governos é o oferecimento de espetáculos de artistas consagrados porque parte-se do pressuposto que exista uma cultura positiva, mais relevante que as demais e que, por isso, deve ser difundida a todos. O problema é que esta ação não respeita a diversidade cultural e valoriza, principalmente, os produtos culturais da elite, além de ver o público apenas como apreciador e receptor da cultura, desconsiderando seu a papel de produtor cultural.
Um exemplo é o show da Vanessa da Matta que ocorrerá em Sorocaba no próximo dia 13 e que, mesmo pago pelo governo federal, ou seja, com dinheiro público (dinheiro que é seu, é meu) não terá ingressos com preços acessíveis. É mais uma prova de que cultura é tratada como uma mercadoria qualquer, uma mera fonte de lucro para empresas privadas e artistas consagrados.
Apesar de toda a sua riqueza, a cultura popular é recorrentemente desvalorizada, identificada ao mau-gosto, ao grotesco, ao simplista e ao vulgar, visões limitadas e pejorativas facilmente explicáveis num contexto social no qual o povo está em posição subalterna. Não pode mais existir esta distorção que é a promoção apenas de eventos culturais notadamente elitistas e ignorar a produção genuinamente popular, tudo em nome de interesses eleitoreiros.
Uma política cultural democrática deve ser o objetivo primeiro de qualquer gestor cultural que se julgue progressista e sintonizado com os anseios de sua comunidade. E não é isso o que vivenciamos hoje. Políticos espertos sabem muito bem como abocanhar votos de jovens sedentos por ações culturais e por entretenimento através de discursos nos quais prometem ações das mais diversas, dizem que vão valorizar a cultura popular, que cada jovem e adolescente da periferia vai ter seu espaço para desenvolver Hip Hop e outras ações, vendendo sonhos que não se concretizarão e que só aparecerão novamente no período de eleições.
Agora como posso ser tão ácido com a gestão pública da cultura se sou (pelo menos por enquanto) um servidor público a serviço da cultura? Aí é que está, venho percebendo que muito do que se promete sentado não se cumpre em pé, muito se avançou em Votorantim e em Sorocaba, mas as equipes das secretarias de cultura em sua maioria são formadas por servidores descomprometidos, pessoas sem a mínima condição de lidar com artistas das mais diversas esferas, que não são respeitados em sua pluralidade.
Dessa realidade é que parte o meu grito por cultura, que só será prioridade quando for cobrada, quando for exigida, quando eles deixarem de fazer de conta que fazem e nós deixarmos de fazer de conta que acreditamos.
Hoje o dia da Cultura é mais uma data entre tantas existentes. A diferença é que poderíamos estar comemorando a valorização de nossos artistas regionais e populares. Não é que acontece e não devemos ficar calados.

Werinton Kermes é Jornalista e autor do Livro “Política e ação Cultural. Por uma Gestão das Culturas” (publicado na coluna “Do Leitor” do Cruzeiro do Sul, em 05/11/2009).










Protagonista da cultura na região




Diante dos insistentes boatos de que Werinton Kermes estaria deixando a secretaria municipal de Cultura de Votorantim, nós, que subscrevemos esta carta, vimos a público manifestar nossa admiração pelo trabalho que o secretário vem desenvolvendo nos últimos seis anos.
As ações e projetos culturais de Votorantim irradiam positivamente em toda a região, inclusive em Sorocaba. Se hoje nos orgulhamos de ter uma cidade da região que é referência nacional em termos de produção e pluralidade cultural, isso é, em boa parte, mérito de Werinton Kermes.
Sabe-se que a cultura no Brasil, em todas as esferas de poder, ainda carece de investimentos; ainda é relegada a segundo ou terceiro planos, seja por governos ou pela iniciativa privada. Mas essa dificuldade ressalta ainda mais o trabalho de Werinton, que sempre cultivou parcerias heterogêneas para viabilizar eventos e manifestações culturais dirigidos aos mais diversos públicos.
O dinamismo e a ousadia de Werinton proporcionam atrações para o público e, ao mesmo tempo, espaço para talentos da região.
Com um currículo invejável e bastante querido nos meios culturais, é até natural — embora deplorável — que Werinton tenha despertado a fúria de alguns ressentidos a quem o secretário faz sombra.
Temos certeza de que o prefeito de Votorantim, Carlos Augusto Pivetta, nutre a mesma admiração e o mesmo respeito que nós pelo secretário. Não nos cabe interferir na composição do secretariado. E nem é, de forma alguma, nossa intenção.
No entanto, seria omissão de nossa parte, sendo conhecedores do valoroso trabalho de Werinton, não manifestarmos nosso apreço pelo secretário, que vem sendo injustamente bombardeado por comentários ferinos, rumores e outros expedientes desleais.
Eventos populares, acesso à cultura regional, clássica, barroca; fotografia, vídeo, artes plásticas, músicas dos mais diversos gêneros, literatura, teatro, mostras, festivais, expressões culturais dos bairros, formação do senso-crítico do “consumidor” de cultura ... a diversidade e a ousadia características do secretário Werinton realmente são invejáveis. O que não significa que a inveja seja justificável.
Por isso, reiteramos nosso apoio e admiração pelo cidadão, fotógrafo, jornalista, gestor cultural e secretário Werinton Kermes.

Izídio de Brito Correia – vereador PT de Sorocaba
Ademilson Terto da Silva – presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região
Marco Antônio de Almeida – vereador PT de Votorantim
Geraldo Pinto de Camargo Filho – vereador PT de Piedade
Evanildo Amâncio – coordenador da subsede regional da CUT Sorocaba
Vicente Paulo da Silva – deputado federal PT-SP
Francisco França da Silva – vereador PT de Sorocaba


(Publicado na “Folha Metalúrgica” - Edição de novembro)

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